Uma foto no facebook

criança feliz

Eis que as crianças estão recebendo no lugar de deus

E agora é o seu nome que se prega em vão,

Para a transgressão dos mandamentos.

Em seu nome vamos fechar museus;

Para protege-las vamos limitar  as escolas;

Para ampará-las vamos prendê-las;

Para lhes dar guarida vamos nos armar.

Eis que as crianças viraram prioridade nacional

E a população se mobiliza implacável na custódia de seus direitos.

Não vamos permitir que nenhuma criança inocente seja vítima

Dos abusos dos artistas, dos professores, dos comunistas.

Vamos proteger nossas crianças desta imoralidade subliminar que coloca em risco

A instituição sagrada da família.

Para cada criança salva, uma foto no facebook.

Vamos continuar protegendo o nosso futuro.

Graças a nossa impávida vontade,

Neste momento nenhuma criança está sendo sexualmente abusada por alguém de sua confiança;

Nenhuma criança está trabalhando;

Nenhuma criança está sendo prostituída;

Nenhuma criança está vendo a mãe ser espancada até a morte;

Nenhuma criança está morrendo de bala perdida;

Nenhuma criança está usando drogas;

Nenhuma criança está passando fome;

Nenhuma criança está morrendo no corredor de um hospital público por falta de atendimento;

Nenhuma criança está vendo seu pai ser preso;

Nenhuma criança está num abrigo aguardando uma família;

Nenhuma criança está sem estudar;

Nenhuma criança está ao relento;

Nenhuma criança vende balas no farol.

Nenhuma criança sofre bullying

Vamos celebrar o dia dos nossos inocentes!

Unidos continuaremos a protege-los do mal absoluto que se esconde nos livros, nos museus, nas escolas.

Vamos continuar guardando nossos anjinhos nas igrejas, onde a pedofilia  nunca aconteceu.

Para cada criança salva, uma foto no facebook.

Vamos relembrar nossa infância saudável, e vamos continuar ignorando as infâncias roubadas.

Ignorá-las nos dá paz.

Ignorá-las nos protege

Ignorá-las move a roda.

Vamos entregar nossas crianças aos políticos, pois teremos eleições ano que vem.

Para cada político salvo, uma foto no facebook.

Ninguém há de roubar a paz das nossas crianças, estas que brincam nos limites de nossos muros.

Em nome delas vamos ignorar  as que nem puderam nascer crianças.

Para cada criança ignorada, uma foto no facebook.

 

desenho de Helena Gentile

 

 

PASCAL

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Já vivi outros sábados de aleluia,

Em que, na véspera, minha mãe preparava o bacalhau na panela de barro,

E a mesa era farta de vinho e de gente

Era o tempo do barulho,

Das crianças correndo e das vozes se confundindo,

Quando a ideia de feriado era sinônima de reencontro

E as pessoas se juntavam num abraço para a fotografia.

Nestes tempos , quando o calendário era importante,

E a felicidade corriqueira, eu não me dava conta da minha sorte,

Recebia com naturalidade meu pacote de alegria.

Eram tempos de fé.

Eu cria, sem esforço, porque o milagre se repetia.

Assim como minha mãe, eu passei a assar o bacalhau na sexta-feira santa,

E cheguei a ajoelhar-me no templo na hora da Via Crúcis.

Trago comigo a memória distante das procissões, dos terços,

Das crianças vestidas de anjinho,

Das velas acesas nas mãos dos adultos

E do barulho dos sapatos nos paralelepípedos que calçavam as ruas.

Trago comigo a lembrança da crucificação em frente à Matriz,

E do silencio que aguardava a hora da ressurreição.

No sábado de hoje, na casa vazia, fui acordada pelo galo do vizinho,

Que cantou inconveniente durante toda a madrugada

E interrompeu o sonho com minha mãe.

No sábado de hoje meu único louvor chama saudade,

Meu único credo é a poesia.

 

Desabrigon

familia-sa-3

Há uma menina dentro de mim e ela chora.

Compadeço-me dela, dos seus olhos marejados, do seu nariz vermelho, do seu pranto sentido e escondido nos cantos fugidios da casa.  

Quero desembaraçar os seus cabelos, e afagar seu pequeno corpo, e alentar aquele pranto magoado, mas a menina se esconde para trás de todas as outras recordações e, quando eu vou procurá-la, me distraio com outros acontecimentos, e já não a escuto e me esqueço de que ela chora. 

Então, às vezes, alguma coisa sai do lugar e eu volto a sentir aquela sensação desoladora de não pertencimento, e a menina ressurge acima de todas as lembranças e eu a ouço desolada.

 Que triste que seja eu mesma a casa desta menina e que a mim pertençam os escombros onde ela se abriga e que eu não consiga lhe oferecer meu colo e meu conforto. 

Que triste que seja eu esta mulher que não alcança a menina que mora dentro de si e que inconsolavelmente chora.

Que triste que o pranto infindável da menina que se resguarda no meu corpo não se derrame pelos meus olhos que estão secos e se recusam  a alijar-lhe a carga .

Que triste que a pequena  volte a desaparecer neste cipoal confuso  que nos tolhe o verso,  que nos turva a vista e nos transforma em perda.

Que triste que estejamos tristes eu e a menina.

img_5304-4
Cruzamos em silêncio  com o pequeno cortejo de homens e mulheres vestidos com a complacência da própria sina.

O terço monocórdico era recitado em uníssono: “Rogai por nós pecadores “ , enquanto conduziam, em última homenagem ,  alguém que já foi vida.

A manhã  tinha aquele azul de promessa  que destoava da dor, do choro e do fim.

 A vós suspiramos gemendo e chorando neste vale de lágrimas “, entoava o coro em perfeito compasso.

Desejei crer.

As mãos firmes de meu pai regaram o canteiro de rosas menina no jazigo de minha mãe. Seu silêncio, minha oração.

Voltamos ao carro, ele foi dirigindo devagar pela avenida, passamos pela maternidade onde nasci, pela capela onde casei, pelo clube da minha infância. Lembrei que esta avenida era chamada de Saudade.

Meu pai assobiou. Eu cri.

Orfandade

img_5013

Baixou-se a última pá de cal.  Nos pedriscos  passos secos entoavam um canto de despedida. Foi o ocaso mais lindo de maio. Pássaros gritavam recolhendo-se nas copas dos fícus. Lentamente o cortejo foi desaparecendo .

Voltamos solitários para casa. A casa que já não era.

Cada um levando consigo o legado de sua dor.

Não houve um acordo, um planejamento, um único verbo. Perdidos pelos quartos abrimos todos os armários, caixas, sacolas, cada gaveta.

Aos poucos nosso pranto tomou vida. Deitávamos coisas no lixo enquanto pequenos fragmentos de memória eram resgatados. Uma coleção de leques coloriu o leito viúvo. Nossas primeiras roupinhas iam surgindo da desordem dos anos, a louça fina uniu-se em jogo na cristaleira.

A cada sobejo que saía, uma outra história desabrochava: Uma fotografia, um bilhete, um cheiro, uma receita.

Cuidadosos, passávamos pelos caminhos solitários e tortuosos do calvário isolado que é toda existência.

Cada lamento foi repercutido.

Choramos.

Rimos.

Em silenciosa expiação libertamos, para sempre, a face serena, corajosa, amorosa, linda e intocada de nossa mãe.

 

 

 

 

DOMINGO

 

Estou só, com um domingo inteiro pela frente. Não colocarei panelas no fogão, já que não há família para sentar à mesa. É domingo e o ócio do dia se anuncia alegre e libertador, ninguém a me cobrar nada. Acordo cedo, como de hábito, e vou cuidar dos cães, depois do jardim. Faço alguns telefonemas para a família e amigos distantes. Checo as notícias no computador, manifestação, ir ou não ir, aborto, quem é contra quem não, tragédia de Chapecó, abuso da mídia, tenho a impressão que a semana não passou, desisto das notícias.

Meu estômago lembra que terei que comer com ou sem família, coloco uma panela no fogão.  As cachorras me lançam olhares pidões, querem a bolinha. Já tenho um estômago e cães mandando em mim.

Penso em ir ao cinema, mas fico com pena das cachorras, faço a lista de filmes e séries atrasadas na Netflix, seria uma ótima oportunidade para limpar meu armário ou terminar a faxina do escritório. Ah, a arte de procrastinar!

Resolvo fazer uma pesquisa na internet sobre a ligação entre ONGS, igrejas  e política (… bem que eu desconfiava). Preciso ler mais sobre isso.

Vem um cheiro de queimado da cozinha e o ócio sai pela janela, deixando uma panela preta na pia. Puta que o pariu!

Mas é domingo, eu estou sozinha, o dia é livre para mim, e a panela é minha! Num ato heroico e  catártico jogo a panela no lixo e volto para o computador. Retorno à minha pesquisa, mas, no terceiro texto, ainda sinto a reprovação da minha mãe. Penso que coloquei a panela no lixo reciclável. Os olhos verdes da minha mãe nas minhas costas. Tiro a panela do lixo, palha de aço e saponáceo. Nunca mais seremos as mesmas. Nem a panela nem eu que não dou conta de um domingo de ócio.

LÍRICA DOS 84


É um homem velho o meu pai.

Nada mais ele teme ou espera.

Tudo ousa.

O tempo apareceu passando

Uma cobrança pela soleira.

Meu pai riu.

O tempo acabrunhou-se desimportante.

Meu pai deu de ombros:

– “Ignoro solenemente”.

Restou ao tempo aliar-se ao meu pai.

Hoje eles trocam memórias sentados na varanda.

Quando eu tenho o privilégio de estar junto,

Fico medindo meu pai e o tempo.

Um dia eu vou ser jovem como eles.

Nada a temer,

Nada a esperar,

Tudo ousarei.

Gnocchi

imageO amor pode ser barulho,

O amor pode ser doído,

Às vezes o amor é uma

Mistura de batata doce

Com farinha de trigo,

Um sorriso discreto ,

Uma  parceria muda,

Um ritual de saudade.

 

( Imagem de Lully Francischetti)

O QUE VEIO ANTES

Carol

Primeiro foi promessa, depois veio o ventre, um nome, maio, você.

Primeiro foi o berço, depois o chão, fraldas, bonecas, cabelos, você.

Primeiro foi a escola, a professora, os amigos, as festas, você.

Primeiro as malas, a rodoviária, a despedida, a cidade nova, você.

Primeiro foi o medo, o susto, o desencontro, a solidão, você.

Primeiro a rebeldia, as músicas, as festas, o namorado, você.

Primeiro veio o emprego, o cansaço, as brigas, a tristeza, você.

Primeiro veio o sonho, a teimosia, a insistência, você.

Primeiro veio o amor, o encantamento, a alegria, você.

Primeiro veio a cidade grande, o medo, o frio, a noite, você.

Primeiro vieram outros amigos, as mudanças, os planos, você.

Primeiro veio a decepção, o coração partido, a solidão, você.

Primeiro veio a formatura, o desemprego, o desassossego, você.

Primeiro veio o novo emprego, e depois outro e depois outros, você.

Primeiro veio a reconciliação, sopraram novos ventos, seu sorriso de novo, você.

Primeiro veio setembro, veio um descontrole, um medo enorme,

Primeiro veio uma filha, mais coragem ainda, você.

Primeiro veio o sonho, a teimosia, a persistência, veio a fé, você.

Primeiro veio o compromisso, veio a empolgação, veio realidade, você.

Primeiro veio a chance, depois as aulas, os livros, os desafios, os novos amigos, você.

Primeiro veio a vigília, veio a morte, veio o funeral, você.

Primeiro veio o desespero, veio a orfandade, veio a fraternidade, você.

Primeiro veio a dor, depois o amor, veio o pai, veio o amigo, você.

Primeiro veio o estudo, depois a prática, o verbo, você.

Primeiro veio você desenhando seu caminho com o grafite do dia,

Primeiro veio você arrumando coragem e acreditando.

Primeiro veio você com força e esforço

Por tudo que veio antes, hoje é de novo um dia de você.

E amanhã teremos mais de você.

Brilha forte.

 

 

 

Vamos parar de usar Eva para justificar a conduta de Adão

Foi preciso que mais de 30 homens estuprassem uma adolescente para finalmente se constatar que o fim do mundo é aqui. Note-se que a  grande mídia só começou a noticiar o caso mais ou menos vinte e quatro horas depois da veiculação da notícia, muito por causa do barulho dos movimentos feministas e sociais que denunciaram a brutalidade incessantemente nas redes.  Para cada post indignado  uma grande quantidade de comentários responsabilizando o comportamento da vítima (com esta roupa, neste lugar, naquele horário). Não faltou gente para assistir o vídeo, compartilhar fotos e julgar a moça.

Eu fui criada dentro de uma sociedade altamente machista, numa cidade pequena, onde as mulheres começavam a ser rotuladas tão logo menstruavam. Rapidamente,  as meninas já eram encaminhadas ao seu destino: “esta é para casar, de família,  garota de fim de festa, esta é só para pegar, menina fácil”. Infelizmente expressões como estas marcavam como gado uma garota da minha época e, em muitos casos, selavam o seu destino.

Ainda hoje, mais de trinta anos após a minha adolescência, quando eu deveria esperar que as questões relativas à sexualidade e a moral das meninas estivessem um pouco mais avançadas, presencio situações de misoginia e preconceito dentro dos núcleos familiares, nas rodas de amigos, entre entes queridos.

Precisamos entender que a barbárie que atravessou o oceano e chegou até aqui, é o caminho natural de uma sociedade que se cala quando um juiz absolve um avô do crime de estupro, é a explosão que se espera quando os professores, reitores e alunos dos câmpus universitários assistem seus pares estuprando suas colegas e opinam pelo silêncio. É a decorrência simples das igrejas que permitem que seus padres e pastores responsabilizem as mulheres e seus modos para defender o descontrole dos homens.  Vamos parar de usar Eva para justificar a conduta de Adão.

Quando nós deixamos de nos indignar com a brutalidade contra as mulheres em qualquer parte do mundo permitimos que esta tirania se aproxime da gente. Não se engane, no momento em que uma revista de grande circulação enaltece um comportamento padrão feminino como o correto, acaba passando um recado para a sociedade: Quem está fora do padrão está errado, sujeito, portanto, às consequências do seu erro.

Ao permitimos, calados, que um projeto de lei (PL 6022/2013), proíba o aborto após o estupro, nós estamos consentindo no combate à consequência do estupro e não ao estupro em si. Estamos dizendo, eu tolero o estupro, mas não tolero as mediadas protetivas para a vítima.

Quando um pai cria seu filho para ser “pegador”, viril, o macho alfa e cria sua filha para negar o próprio desejo, ele está construindo dois universos antagônicos que vão se chocar lá na frente. Ele está dizendo que o menino tem que fazer valer os seus instintos enquanto a menina tem que refrear os dela, e, apenas isto, já é uma violência.

Nenhuma mulher está a salvo da barbárie, quando uma, meramente uma, está vulnerável e a sociedade age de forma complacente. A cultura do estupro passa pelos dogmas religiosos, pelo machismo, pela misoginia, pela tolerância e pela fantasia que criamos de uma sociedade com papéis definidos por gênero e condição social.

Independente do seu credo, do papel que você ocupa na pirâmide social, da sua orientação sexual, você deve se questionar sim, até onde a sua conduta fomenta e justifica esta violência. Acredito que muitos de nós sequer percebemos o quanto nossos atos e omissões contribuem para este tipo de crueldade, mas penso que, já que foi aberto o debate, a primeira coisa que devemos fazer é rever o nosso próprio comportamento diante dos fatos.

Uma coisa é certa, sempre que toleramos um ato de violência ou injustiça, toda vez que nos negamos a enxergar um preconceito, no momento em que nos rendemos a uma imposição dos costumes, estamos alimentando a barbárie.

Diante deste contexto, é preciso repensar os nossos hábitos sociais, e entender que o não de uma mulher dever ser tão valorizado e respeitado quanto o seu consentimento. Quando uma mulher nega este seu consentimento, sua palavra, e apenas a sua palavra deve bastar. Não aguentamos mais a absolvição dos homens estupradores sob o manto do consentimento presumido, porque, em matéria de desejo, a manifestação dever ser expressa, inequívoca e prazerosa para todos os envolvidos e, se não mudarmos efetivamente o nosso modo de agir e pensar, toda rua será deserta, todo lugar será perigoso, e não haverá muro de condomínio que desminta a ideia de que o fim do mundo é aqui.